Ao final do artigo em que discute a exploração da dimensão reflexiva no ato de escrita por crianças, Maria Cecília Góes propõe:
"Finalmente, queremos sugerir, que uma direção produtiva para o estudo da constituição do escritor está na busca de compreensão sobre os diversos planos de dialogia implicados na produção escrita [...]" (GÓES, 1993, p. 115)
Em que se fundamenta tal sugestão? Que dados analisados nesse estudo orientam tal necessidade de compreensão?
Inicialmente retoma a existência de abordagens distintas entre escritores iniciantes e experientes:
“Para os primeiros, o escrever seria uma instancia de relato de conhecimento,
enquanto que, para os segundos, envolveria uma transformação do conhecimento.
Num caso, o escritor conta o que sabe ou quer dizer sobre um tópico, conforme se
lembra, sem considerar deliberadamente princípios de discurso ou a perspectiva
do leitor. No outro caso, essas exigências são atendidas e o escrever é assumido
como uma situação problema que envolve aspectos retóricos e de conhecimento.”
(GÓES, 1993, p. 100)
A partir daí, a autora se debruça sobre os escritores iniciantes e defende, baseada nos argumentos de Vygotsky, que “... a atenção da criança está inicialmente centrada mais no objeto do dizer – naquilo sobre o que se diz – do que no próprio dizer – naquilo sobre o que se diz – do que no próprio dizer – no que e no como se diz.” (GÓES, 1993, p. 101).
Defende ainda que com o passar do tempo e com troca de experiências de qualidade que os escritores iniciantes são submetidos, há uma evolução nas produções escritas no que se refere a capacidade de formar um juízo crítico daquilo que escreveu ou até mesmo corrigir e alterar tal produção pela própria releitura.
Nos dois primeiros procedimentos de análise de texto desenvolvida pelo grupo de pesquisa, as crianças deveriam ler seu texto e indicar correções necessárias por sua própria iniciativa e no outro procedimento, esse trabalho seria feito em duplas. Tal pesquisa mostrou que as crianças estão mais preocupadas com ortografia e caligrafia, provavelmente repetidas de um modelo vivenciado em sala de aula, com a professora.
Portanto, as crianças mostram que não estão “interessadas” ainda no quanto o seu enunciado está claro de modo a ser entendido por um leitor. Elas não levaram em consideração problemas de organização de enunciados.
Parece que, ao escrever, tudo está feito. Não há ainda, por parte da criança, a capacidade de identificar ou até mesmo diferenciar quais pontos do texto podem ser reformulados e se isso de fato é necessário.
No terceiro e último procedimento de análise de texto, a pesquisadora apresentou os problemas que deveriam ser resolvidos no texto feito pelas crianças e havia também instruções com o objetivo de melhorar o texto para o leitor. Neste procedimento houve uma atenção por parte das crianças em relação à organização dos enunciados e isso se deu provavelmente porque um leitor deu retorno ao escritor.
“... o papel de “representante do leitor” assumido pela entrevistadora
constituiu uma condição de ajuda para a busca de soluções, muitas das quais
foram bastante adequadas, revelando capacidades emergentes, no jogo das
interações em torno do texto.” (GÓES, 1993, p. 112)
Consigo localizar essa discussão no meu trabalho em sala de aula com produção de textos. Já tentei intervir de várias formas nas produções das crianças, mas confesso que sempre “deixou a desejar”. Ultimamente tenho percebido que apontamentos que ajudam as crianças a buscar soluções para problemas em suas produções são mais eficientes.
Apesar de já perceber isso, ainda falta uma organização para esse trabalho e aponto alguns impasses em que me encontro:
1. Toda a produção deve ser reescrita?
2. As orientações podem ser apontadas para serem feitas na próxima produção da criança?
3. A ortografia não pode ser verificada concomitantemente com a organização do enunciado?
4. Que pautas devem ser elencadas para a melhoria das produções nos diferentes momentos desse tipo de aprendizagem?
Referência:
GÓES, Maria Cecília Rafael de. A criança e a escrita: explorando a dimensão reflexiva do ato de escrever. IN: SMOLKA, Ana Luíza B.; GÓES, Maria Cecília Rafael de (Orgs). A linguagem e o outro no espaço escolar: Vygotsky e a construção do conhecimento. Campinas (SP): Papirus, 1993.
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