domingo, 20 de setembro de 2009

Referência sobre Textos de Divulgação Científica

Encontrei esse trabalho sobre TDC (textos de divulgação científica) e selecionei a parte que achei legal.

NANTES, Eliza Adriana Shewer; GREGÓRIO, Regina Maria. O gênero texto de divulgação científica: uma proposta de trabalho. Universidade Estadual de Londrina, 2007.

2. Fundamentação teórica
2.1 Os gêneros discursivos
Na introdução deste trabalho defendemos a idéia da adoção dos gêneros discursivos enquanto objeto de ensino para o ensino de Língua Portuguesa. Nossas asserções se basearam nos próprios Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa-PCNs (1998, p.21), que por sua vez retomam os estudos bakhtinianos, linha adotada também pelos pesquisadores do projeto de pesquisa, por consegüinte, deste trabalho. Dentro das atividades de investigação dos pesquisadores, enquanto eixo norteador de pesquisa, destaca-se o estudo realizado sobre o agrupamento dos gêneros apresentado por estudiosos da Universidade de Genebra.

Visando estabelecer a uma classificação, Dolz & Schneuwly (1996) apud Barbosa (2000), propõem cinco agrupamentos, que podem ser sintetizados em:

_ gêneros da ordem do narrar – cujo domínio de comunicação social é o da
cultura literária ficcional, enquanto manifestação estética e ideológica que necessita
de instrumentos específicos para sua compreensão e apreciação (exemplos destes
gêneros seriam: contos de fadas, fábulas, lendas, narrativas de aventura, narrativas
de ficção científica, romance policial, crônica literária, etc.). Envolvem a capacidade
de mimesis da ação através da criação de uma intriga no domínio do verossímil;
_ gêneros da ordem do relatar - cujo domínio de comunicação social é o da
memória e o da documentação das experiências humanas vivenciadas (exemplos
destes gêneros seriam: relatos de experiência vivida, diários, testemunhos,
autobiografia, notícia, reportagem, crônicas jornalísticas, relato histórico, biografia,
etc.). Envolvem a capacidade de representação pelo discurso de experiências vividas
e situadas no tempo;
_ gêneros da ordem do argumentar – cujo domínio de comunicação social é o
da discussão de assuntos sociais controversos, visando um entendimento e um
posicionamento perante eles (seriam exemplos de gêneros: textos de opinião,
diálogo argumentativo, carta de leitor, carta de reclamação, carta de solicitação,
debate regrado, editorial, requerimento, ensaio, resenhas críticas, artigo assinado,
etc.). Envolvem as capacidades de sustentar, refutar e negociar posições;
_ gêneros da ordem do expor – que veiculam o conhecimento mais
sistematizado que é transmitido culturalmente – conhecimento científico e afins
(exemplos de gêneros: seminário, conferência, verbete de enciclopédia, texto
explicativo, tomada de notas, resumos de textos explicativos, resumos de textos
expositivos, resenhas, relato de experiência científica, etc.). Envolvem a capacidade
de apresentação textual de diferentes formas dos saberes;
_ gêneros da ordem do instruir ou do prescrever – que englobariam textos
variados de instrução, regras e normas e que pretendem, em diferentes domínios, a
prescrição ou a regulação de ações (exemplos de gêneros: receitas, instruções de
uso, instruções de montagem, bulas, regulamentos, regimentos, estatutos,
constituições, regras de jogos, etc.). Exigem a regulação mútua de comportamento.
(BARBOSA, 2000, p. 170-171)


De acordo com a classificação acima, o texto a ser analisado pertence à ordem do expor, porque veicula o relato de uma experiência científica.

O Texto de Divulgação Científica é um gênero particular de discurso que transpõe um discurso específico de uma esfera do campo científico para a comunidade em geral. Em outras palavras, é por meio do Texto de Divulgação Científica que a sociedade entra em contacto com as pesquisas que estão sendo realizadas, dos experimentos em andamento, conforme apregoa Reis (1964), divulgar cientificamente é:

[...] comunicar ao público, em linguagem acessível, os fatos e princípios da ciência,
dentro de uma filosofia que permita aproveitar o fato jonalisticamente relevante
com motivação para explicitar os princípios científicos, os métodos de ação dos
cientistas e a evolução das idéias científicas.
(REIS, 1964, p. 353)

Isso posto, considerando que o jornalista estará se dirigindo a um público não especializado, que possivelmente desconhece os termos específicos e jargões da área, é necessário que seja feita a mediação do jornalista entre os interlocutores: fonte oriunda do discurso e leitor. Para tanto, considerando que o discurso jornalístico se propõe a divulgar a informação, cabe ao jornalista torná-lo atraente a tal ponto de convencer o leitor a selecionar a reportagem e proceder à leitura. No momento de produzir o texto, o jornalista dispõe de alguns recursos lingüísticos, como, por exemplo, o título e os elementos extralingüísticos,
como fotos e esquemas, elementos estes que auxiliam a leitura e se justificam porque o objeto do texto não pertence ao mundo cotidiano dos leitores.

Na seqüência, versaremos sobre os gêneros discursivos na esfera científica.

2.2 Os gêneros discursivos na esfera científica

Na esfera do discurso científico, é relevante esclarecermos que o Texto de Divulgação Científica, doravante TDC, é oriundo da junção de dois gêneros: o gênero discursivo e o gênero jornalístico. O primeiro serve como fonte de informação e o segundo faz a adaptação da informação de tal forma que seja compreendida pelos leitores.

Nas palavras de Leibruder (2000), ocorre uma heterogeneidade discursiva

[...] na medida em que incorpora no seu fio discursivo tanto os recursos lingüísticos
daquele que lhe serve de fonte – o discurso científico – quanto daquele que
pretende atingir – o discurso jornalístico. É, portanto, no liminar entre uma e outra
prática discursiva no espaço do interdiscurso, que a atividade de DC se desenvolve.
O diálogo, o contato com seu exterior discursivo é, aqui, o elemento chave do que
vem a ser este gênero discursivo.
(LEIBRUDER , 2000, p.230)

Como podemos observar, é no espaço do interdiscurso que são feitas as adequações do discurso científico ao público-alvo. Essas adaptações terão influência, como já elencado, do leitor a que se destina bem como do suporte no qual o TDC será publicado, se em uma revista especializada da área ou na revista VEJA, Super Interessante, Globo Ciência, Nova Escola, dentre outras. Com essas asserções queremos ressaltar que a escolha lexical, lingüística, a decisão da forma como será o título, a necessidade de um subtítulo, do acréscimo de uma tabela, uma síntese ilustrativa, gravura, dentre outras possibilidades ao dispor do autor que visam didatizar o texto.

2.3 O Discurso Científico

O DC é usado, sobretudo, para divulgar o resultado das pesquisas dos especialistas. Para tal finalidade o estudioso o faz um relato através de artigos ou paper que segue uma estrutura rígida, formal, característica própria do DC, que pode ser sintetizada em três partes.

Na primeira parte, faz-se uma descrição dos materiais usados na pesquisa; Após, explicita-se quais foram os objetivos e procedimentos adotados e, por fim, Apresenta-se os resultados, as conclusões a que se chegou com o experimento.

Quanto às características da linguagem utilizada no DC, podemos elencar: objetividade, concisão e formalidade. Há ainda, a presença de uma padrão lexical, como o vocabulário técnico específico da área e a nominalização. O tempo verbal se faz presente com duas possibilidades: o uso dos verbos na 3ª pessoa do singular, acrescidos da partícula se (índice de indeterminação do sujeito) ou na 1ª pessoa do plural (possivelmente no intuito de maior neutralidade ao texto, através do apagamento do sujeito).

De acordo com Leibruder (2000, p. 232) os índices de impessoalidade e o apagamento do sujeito “nada mais são do que mecanismos argumentativos, cuja finalidade é provar a veracidade e legitimidade do discurso proferido”. Com essas asserções a autora justifica o fato de o DC é um “fazer persuasivo”, como o são também o DJ e o TDC. A seguir, versaremos sobre o primeiro.

2.4 O Discurso Jornalístico
Na linguagem usada no DJ, a objetividade, a clareza e a concisão são imprescindíveis a esta modalidade de discurso. No que se refere ao tempo verbal, é comum o discurso relatado (tanto o direto como o indireto), a descritividade do fato, por meio da partícula se após os verbos empregados na 3ª pessoa do singular,. No DJ o foco principal a ser destacado é o fato, cabendo ao jornalista providenciar sua divulgação da melhor forma possível.

Como ponto convergente entre o DJ e o DC destacamos o apagamento do sujeito. Observa-se a preocupação do jornalista em ser o mais impessoal possível de modo que as notícias falem por si mesmas. Por outro lado, ressaltamos como divergente o fato do texto jornalístico desempenhar sua função – de informar – somente à medida que for lido. Justamente daí a necessidade de o jornalista estudar o público-alvo a que a informação se destina, qual o suporte, se há necessidade de utilização da estratégia de gancho frio, através da qual cria-se uma situação de suspense para prender a atenção do leitor, qual a linguagem a ser usada, se mais formal ou coloquial, se é necessário a utilização de juízo de valor (metáfora, comparação, modalizadores, advérbios), dentre outras estratégias que visam prender a atenção do leitor de forma que ele opte por selecionar a notícia e proceda a leitura da mesma.

2.5 O Texto de Divulgação Científica

Conforme já ressaltamos, o TDC surge da intersecção de dois gêneros discursivos abordados anteriormente: o Discurso Científico e o Discurso Jornalístico. Cada gênero discursivo, mesmo pertencendo à mesma ordem – do expor – possui suas especificidades. Podemos citar como exemplo o uso da linguagem mais formal no DC, termos técnicos específicos da área, jargão e uso da linguagem mais coloquial no DJ. No DJ assim como no TDC, faz-se necessário o uso de alguns recursos denominados de elementos didatizantes que podem ser explorados pelo autor do texto objetivando transmitir a informação ao leitor da forma mais clara e concisa possível.

No que tange aos elementos didatizantes, podemos sintetizá-los em:Uso de explicações (ao citar termos técnicos procurar explicitá-los);Exemplificações;Comparações;Metáfora;Nomeação;Escolha lexical e recursos visuais.

A utilização desses elementos didatizantes no texto tem a finalidade de aproximar o leitor do tema a ser explorado. Então, apesar de o texto científico ter sido produzido no interior de uma comunidade restrita, para que sejam disseminadas suas pesquisas, experimentos, descobertas, faz-se uso do TDC escrito para um leitor leigo no assunto e, para isso, o jornalista utilizará de estratégias que objetivam tornar o texto atrativo ao leitor, de maneira que o mesmo seja lido, cumprindo assim, o intuito do texto jornalístico: disseminar informação.

3 comentários:

Maria José Nóbrega disse...

Claudia,
vejo que o grupo já tem com o que se divertir.
Como vocês vão trabalhar com artigos de divulgação científica para crianças, aí vai um artigo que penso vai ajudar:
http://www.ufpe.br/pgletras/Investigacoes/Volumes/Vol.21.2/Maria_Giering.pdf
Beijos,
Mazé

Cibely disse...

Oi, Claúdia. Tudo bem?
Hoje li todos os textos que selecionamos até agora (só faltou ler na íntegra este que você postou hoje). Gostei do recorte que você fez! Depois, fechamos um pouco mais, interligando com outras referências (por exemplo, o artigo do livro Gêneros do discurso na escola).

Beijos,
Cibely

Márcia Fortunato disse...

Cláudia, achei bem interessante esse texto especialmente pelo tratamento do caráter híbrido do gênero. Acho que você e a Cibely estão com um material interessante. Postei uma dica de um texto no blog da Cibely, confira.
Beijos, Márcia.