Provavelmente foi bem cedo quando o homem percebeu a força das palavras para ajudá-lo a atingir seus objetivos tanto práticos como políticos. Sendo o ser humano um ser racional e competitivo, percebeu que seus semelhantes também haviam percebido essa estratégia de conquista e começou, então, a buscar maneiras cada vez mais inéditas e eficientes na maneira como exprimir suas idéias e tentativas de convencimentos.
Essa talvez seja uma maneira muito simples de justificar o aparecimento da retórica e sua necessidade de “... estudar a língua com o objetivo de sugerir as formas de melhor explorar seus recursos expressivos para consquistar a adesão do auditório.” (Faraco, p. 16).
Nesse desenvolvimento de “apuramento” da maneira de se colocar verbalmente as idéias, estava diretamente ligada a uma necessidade de se estabelecer uma linguagem comum interessante as pessoas diretamente ligadas as situações de convencimento, mais comuns nas situações políticas de grandes decisões.
Enquanto isso, nas ruas comuns, o povo se comunicava a seu modo. Num passado remoto podia até ser ouvido, mas sabemos que, ao longo da história, a voz do povo foi cada vez mais sufocada e menosprezada por uma elite que dava todas as regras, inclusive a do bem falar.
A língua é viva e se transforma o tempo todo. As pessoas dedicadas a organização de regras para a língua não consideraram, pelo menos até agora, as modificações e surgimento de expressões demandadas por todos, principalmente aqueles que não têm acesso a essas regras estabelecidas. O resultado dessa situação é o “... modelo tradicional propriamente dito – a que hoje damos o nome de gramática tradicional – está congelado...” (Faraco, p. 18) desde a Roma antiga.
O grande objetivo dos gramáticos passou a ser a fixação de um padrão de língua e o latim foi o escolhido. Lutero, independente das questões políticas e religiosas a que se envolveu, revolucionou o mundo da gramática quando traduziu a Bíblia para o alemão, promovendo assim “... a fixação das normas padrões desses países e marcos fundamentais da construção da respectiva língua escritas em suas feições modernas.” (Faraco, p. 20). Esse caminho fez com que a tradição germânica fixasse a norma pelo uso presente da língua.
Os países latinos, por sua vez, fixavam as normas pelo passado se vendo obrigados a criar instituições com o objetivo de policiar a língua padrão (as Academias). A elitização foi cada vez mais forte.
Como o latim era uma língua muito diferente da que se falava realmente, criou-se a necessidade de ensinar essa língua como se fosse hoje, uma língua estrangeira. A gramática deixa de ser apoio para melhor dominar a língua materna e passa a ser ponto de partida para conhecer uma outra língua.
Um modelo de ensino da gramática já estava estabelecido. Faraco indica que esse ensino gerou dois vícios presentes até hoje no ensino da língua: o normativismo e a gramatiquice. Ao ensino do latim foi acrescido o ensino da língua vernácula, porém organizado nos moldes do ensino de latim.
Aqui no Brasil havia um conflito entre os que defendiam a existência de uma só língua, a dada pelos portugueses e os que defendiam o abrasileiramento que aproximaria a norma escrita ao padrão falado em nosso país. O português lusitano ganhou a disputa.
Há, portanto, um grande equivoco no ensino da gramática porque seguimos o que está na gramática e não o contrário. Dessa forma é clara a discrepância entre o real e o artificial. Faraco cita essa inversão de danosa, “... em vez de dizermos: por ser a norma padrão está nas gramáticas; dizemos: por estar nas gramáticas é a norma padrão.
Essa maneira de pensar é o comum aqui no Brasil. Portando a questão sobre ensinar ou não gramática nas escolas está equivocada. O conflito não está em ensinar ou não, mas que gramática ensinar. Mesmo com tantas criticas ao ensino tradicional do português, ainda não conseguimos nos libertar do normativismo e da gramatiquice. É muito fácil, numa situação de organização de uma aula de gramática, o professor seguir o que indica a gramática ou o livro didático (muitas vezes organizado também dessa forma).
O desafio colocado pelo autor, e o também estabelecido nas aulas desse curso, é a reconstrução do imaginário sobre a língua. A norma padrão deve sim ser ensinada, desde que refletida em sua estrutura e sobre o seu funcionamento social. É necessário ensinar aos nossos alunos uma reflexão sobre a língua que usamos “... com destaque para a imensa variedade de formas expressivas alternativas à disposição dos falantes.” (Faraco, p. 25).
A norma padrão é, portanto, somente uma das variedades da língua, com suas funções e que, ao mesmo tempo, admite formas alternativas de construção.
Faraco. Carlos Alberto. Ensinar X Não ensinar gramática: ainda cabe essa questão?
Um comentário:
Cláudia,
gostei do texto!
Foi direta ao ponto!
Beijos,
Mazé
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